Da preguiça como método de trabalho

Da preguiça como método de trabalho
Published:
by Editora Globo
Author:
Goodreads Rating:
4.27
Pages:
161
Language
Genre:
ISBN10:
8525002666
ISBN13:
9788525002662

O poeta gaúcho Mario Quintana, num processo lento mas consistente, foi se tornando, principalmente a partir dos anos 1960, cada vez mais conhecido e apreciado por um número crescente de leitores. Sua morte, em 1994, não alterou esse quadro. Foi em função disso, e em respeito a sua obra completa, que a Editora Globo, a partir de 2005, passou a reeditá-la com novo projeto gráfico e fixação definitiva de texto, seguindo o plano editorial de Tânia Franco Carvalhal. A coleção, que já deu a público onze títulos, traz agora Da preguiça como método de trabalho. A extensa obra de Mario Quintana é difícil de classificar, por ter adotado todas as formas possíveis da poesia verbal, do soneto ao poema em prosa, passando pelo verso livre. E se isto é verdade para a obra em geral, é verdade em particular para Da preguiça como método de trabalho. Quintana é o poeta de quem a também poeta Alice Ruiz escreveu: “quando leio Quintana / minha alma assobia / e chupa cana”. Há nesse poema-homenagem, para além do que se diz, também a homenagem implícita de imitar o estilo de Quintana, feito, muitas vezes, de desfazer frases-feitas, para não falar no tom de descompromisso com qualquer sisudez. Estes elementos estão presentes em Da preguiça como método de trabalho já a partir do título. Quanto à linguagem, o livro privilegia (ainda que não se limite a) o poema em prosa. E quanto à forma, adota todas as variáveis da poesia em prosa, dos aforismos aos dísticos, passando por ditos morais, crônicas e diálogos. Mario Quintana é filho do modernismo de 1922. Daí seu coloquialismo, sua variedade formal, sua ironia, sua urbanidade. Não por acaso, seu estilo tem algo de Manuel Bandeira, mas também de Carlos Drummond de Andrade. Ao mesmo tempo, deles se distancia totalmente, e também se distancia do próprio modernismo (ao menos sob um aspecto), ao eliminar o ceticismo derivado da crise que o gerara. Quintana é um poeta que crê na poesia. Enquanto Drummond escreve: “lutar com as palavras / é a luta mais vã / no entanto lutamos / mal rompe a manhã”, Quintana tem na palavra poética uma amiga e uma aliada. Essa aliança ele a transmite a seu público, que não tem, portanto, de “lutar” para lê-lo, como tem de fazer com os demais poetas modernos, em graus variados de atrito com as asperezas do texto. Não há asperezas em Quintana. Sua suavidade, no entanto, é temperada por certa esperteza, por certa lucidez, que logra unir o suave ao profundo sem ceder ao mau humor. Escreve Quintana em Da preguiça como método de trabalho: “Os versos de Jorge Luis Borges são premeditados, implacavelmente lógicos. A sua prosa tem mais mistérios, isto é, mais poesia.” A prosa poética de Quintana, como a que domina Da preguiça como método de trabalho, não tem os mistérios borgeanos, mas nem por isto tem menos poesia. Seus leitores, encantados, agradecem.